"... e escolheu doze deles, a quem também deu o nome de apóstolos."  Lucas 6:12-16

Uma leitura superficial desse evento descrito no texto levaria alguém a pensar que aqueles doze homens foram escolhidos por Jesus dentre a multidão de discípulos, porque eram os mais importantes ou os mais competentes ou os mais capacitados ou porque estavam prontos para cumprir o propósito de Jesus para sua igreja após sua ascensão.
Uma leitura superficial dos evangelhos poderia levar alguém a pensar que aqueles doze homens foram escolhidos por Jesus por terem as condições suficientes para desenvolver sua obra.
Isso é um engano! O que lemos aqui no registro de Lucas é um ponto de partida de uma caminhada de três anos, pois, aqueles homens estavam entrando na olaria para serem moldados, trabalhados, transformados e capacitados por Jesus!   Não, eles não estavam prontos!!!
Eram um bando de caipiras da Galiléia, gente que nunca havia ido além das fronteiras do seu país, com uma visão medíocre das Escrituras, com rachaduras profundas no caráter, com uma estrutura emocional adoecida, gente com a qual poucos, ou nenhum de nós, escolheria trabalhar!
Não eram pessoas perfeitas: Uns tinham motivações erradas. (Mc. 10:35-37), outros impulsivos, passionais. (Mt. 26:33), outros eram desatentos, superficiais. (Jo. 14:5 e 8), outros eram mal intencionados. (Jo. 12:6)
Mas Jesus os escolheu, moldou suas vidas e os capacitou para cumprir a grande comissão. (Mt. 28:18-20; At.2:42; At.17:6)
O desafio da capacitação dos crentes continua em nossos dias e passa por uma liderança comprometida com essa capacitação!
Nesses dias de apostasia, de apatia espiritual, de secularismo, Deus ainda quer usar o seu povo, pois Ele não está em crise.
Se observarmos o tempo daqueles discípulos não era diferente do nosso tempo.  Jesus os capacitou e os vemos como instrumentos de capacitação para a igreja em Jerusalém, Antioquia e assim por diante! (At. 2:42; 11:25-26; 18:11; II Tm. 2:2; Tito 1:5)
Jesus só tinha três anos e investiu na capacitação de seus discípulos!!!
Com muita sabedoria declarou o saudoso Pastor Lee Robertson: "Tudo se levanta ou cai na liderança." A pergunta que se faz necessária é: Onde está a liderança capacitadora em nossos dias?
John Maxwell em seu livro "A arte de influenciar pessoas" disse que nas décadas de 60 e 70 se deflagrou um processo lento de resistência ao poder e autoridade.
Estas duas gerações se revoltaram contra o poder por causa do abuso e fortalecimento das ditaduras no mundo, levando a um enfraquecimento das figuras de autoridade em todos os níveis, inclusive nas igrejas.
Ele ainda afirma que o último período no qual surgiram lideranças heróicas foi durante a 2ª guerra mundial.  "... períodos mais turbulentos produzem pessoas que se levantam para confrontar a crise...", completou.
Irmãos, estamos em guerra, em crise!  Precisamos de mais líderes capacitadores para o povo de Deus!!!

Os estímulos à liderança capacitadora.

Primeiro estímulo: O fato de não sermos imprescindíveis.
O cemitério está cheio de pessoas imprescindíveis!  Há líderes que agem assim, como se as coisas só funcionassem por meio deles e Jesus era imprescindível, mas não agiu como tal (Jo. 15:16), pois poderia ter feito pães e peixes para alimentar a multidão, mas preferiu usar a doação do garoto, poderia ter ressuscitado a Lázaro sem que a pedra fosse retirada, mas pediu que a retirassem, poderia tornar seu evangelho conhecido por outros meios, mas decidiu usar seus discípulos, de todos os tempos, nesse projeto.
O apóstolo Paulo não se via como imprescindível! Em muitas de suas cartas citou vários companheiros de labuta e exortou que as igrejas reconhecessem seu trabalho.
O líder bem sucedido não é aquele que faz tudo, que tem todas as idéias, que planeja as estratégias, mas aquele que leva seus liderados a realizar para a glória de Deus!
Muitos líderes estão estressados, com estafa, desanimados por essa causa, e pior, não realizam nada porque líder sem seguidores não é líder, é alienado!
O que seria de Davi sem seus valentes, de Gideão sem os trezentos, de Moisés sem os setenta anciãos?  É como se o celular de Moisés estivesse sempre ocupado, estava exaurido.   (Êx. 18:13-24)
Há pouco espaço nos nossos arraiais para líderes que revelam sua humanidade, seus limites, mas precisamos das pessoas e por isso devemos capacitá-las para servir melhor ao nosso Senhor!

Segundo estímulo: O fato de não termos o monopólio da visão de Deus.
Deus nos dá visão para o trabalho, mas ele é desempenhado pelo povo de Deus, porque toda visão deve ser compartilhada e difundida no seio da igreja local. (Nee. 2:12-18)
O alinhamento visionário é necessário, pois os crentes devem ter em mãos a mesma planta da igreja que estamos construindo, pois: "... o povo só toca o que vê..." John Maxwell
Todos devem olhar para o mesmo objetivo, por isso Jesus diz: "Erguei os olhos e vejam..." (Jo. 4:35) Em outras palavras: "Vejam o mesmo que eu..." Por isso Jesus compartilhou a visão com seus discípulos.
É triste quando vejo uma igreja com uma visão distorcida sobre o projeto de Deus para ela, e o Pastor é o primeiro a sofrer, quando monopoliza a visão de Deus para o seu povo. A cada culto, em cada mensagem, em cada estudo bíblico, a visão de Deus deve ser embutida, propagada, ensinada, do contrário não haverá capacitação real!

Terceiro estímulo: O fato de não sermos eternos nesse mundo.
O líder bem sucedido é aquele que trabalha em prol de uma causa maior do que ele mesmo. Líderes cuja causa é menor do que eles verão essa causa morrer com eles.     
O que define que a causa é maior do que o líder é a continuidade daquela causa após sua morte, por exemplo, e isso só acontece por meio daqueles aos quais aquela causa foi partilhada.
Jesus trabalhou com seus discípulos de tal modo que sua causa continuasse após sua ascensão, e continuamos, nós estamos aqui! Os discípulos não viveram mergulhados em nostalgia pela ausência de Jesus. (Jo. 14:15-18)
Quando investimos na capacitação do povo de Deus, investimos na continuidade e qualidade de uma obra que sucederá a nós e manterá suas características abençoadoras.
Uma igreja capacitada pelo seu líder não se conformará com qualquer liderança depois dele. Isso evita essa descaracterização denominacional que temos visto, infelizmente também em nosso meio!

As ferramentas da liderança capacitadora.

Primeira ferramenta: A Palavra de Deus ao povo de Deus. (Mt. 5:1)
Toda a capacitação do cristão começa com a Palavra de Deus, toda e qualquer transformação começa com a Palavra de Deus, pois ela é a tocha que acende o desejo e a possibilidade de transformação. (II Rs.22:8-20; 23:1-20) Se você quer ver crentes capacitados, então você deve ensinar, ensinar, ensinar, e ensinar a Palavra de Deus!  Não ensine métodos, ensine valores da Palavra de Deus, porque os métodos passam a Palavra jamais passará! A Bíblia ensina que todo crente deve servir (Gl. 5:13), então ensine e peça que sirvam porque a Bíblia ensina que servir não é uma opção e sim um mandamento. (I Pd. 4:10)
As palavras "servir" e "servo" aparecem aproximadamente 1.452 vezes na Bíblia, há uma grande apologia ao serviço cristão nas Escrituras, então ensine que, como disse alguém, "o servo que não serve, não serve." A Bíblia ensina que é mais importante ser que fazer (I Cor. 13:1-3), ensine que há muita gente ocupada e pouca gente servindo de fato, ensine incessantemente a doutrina bíblica!  
Se o púlpito for fraco, não haverá capacitação, púlpito forte é púlpito onde se prega a genuína Palavra de Deus!!! (I Cor. 14:8)

Segunda ferramenta: A motivação ao povo de Deus.
Porque você pode "cutucar", "beliscar" e até "empurrar" ovelhas e ainda assim não sairão do lugar. Mas dê a elas um bom motivo com o qual se identifiquem, mostrando de que forma se beneficiarão e sobretudo o Reino, e elas o seguirão pacificamente!
Porque pessoas não compram jornais, compram notícias, não compram óculos e sim visão, não compram cosméticos, compram beleza, não compram brocas, compram buracos.
Quem motiva, apela para a visão mais ampla da necessidade e do senso de vocação. Quando a Bíblia é pregada e o povo desafiado, motivado, haverá resultados, porque é muito fácil incriminar, mostrar os erros, criticar a mornidão do povo, mas veja o que Jesus fazia. (Lc. 10:17-20)
Quando tinha de ser duro, era, mas também motivava, também estimulava, também elogiava os seus (Hb. 10:23-25), pois amor é a sétima lei de liderança do livro de David Hocking, onde ele diz que amar pessoas não é fácil, mas que o amor é uma condição inegociável da liderança, porque só o amor responde à altura de Deus!
O processo de capacitação pode ser muito desgastante, a oposição, as críticas, a falta de recursos, mas esse esforço vale à pena! 

Terceira ferramenta: A formação de líderes no meio do povo de Deus.
Porque toda igreja que cresce em envolvimento necessita de um projeto de reprodução de líderes e é um grande problema quando a igreja se torna "maior" que seu pastor, então ele precisa atender a essa demanda.  Nós temos, com raras exceções, outorgado aos seminários a formação e capacitação da nossa liderança, sobretudo para o ministério pastoral.
Os seminários têm uma grande importância nesse processo, mas futuros pastores são de fato formados no útero da igreja local. Jesus tinha essa preocupação (Mt. 9:37; 13:36) e tinha pelo menos três níveis de relacionamento em seu ministério:
O primeiro nível, mais superficial era com a multidão, o segundo nível, mais próximo, era com a multidão dentro da multidão chamada de discípulos e o terceiro nível, mais próximo ainda, era com nove dos doze apóstolos e o quarto nível era íntimo, com Pedro, Tiago e João, esses três foram preparados de um modo mais específico em relação à liderança. Líderes fazem líderes! Gaste tempo nessa sublime ocupação!

Os benefícios da liderança capacitadora.

Primeiro benefício: O redescobrimento do sacerdócio dos salvos. (Jo. 15:16)
É a redescoberta de que servir não é uma opção, mas um mandamento e digo isso porque muita gente quer servir, mas não sabe "o que", "como", e "onde" servir e quando os líderes capacitam o povo pela Palavra, motivando-os, ampliando sua liderança pela multiplicação de líderes, o povo se desperta ainda mais, isso faz com que sejam crentes frutíferos e realizados num lugar significativo de serviço.   E o propósito desse serviço é glorificar a Deus e edificar o corpo de Cristo! (I Pe. 4:10-11)
Isso independe de cargo, de posição, é sacerdócio praticado no dia-a-dia da igreja local!

Segundo benefício: O fortalecimento da mutualidade. (Jo. 13:4-5)
Porque uma igreja capacitada para servir a Cristo o fará servindo uns aos outros e isso afirma nos crentes o fato de que o viver cristão não é individualista, que não podemos ser cristãos sozinhos.
Eles entendem que não podem reter, porque reter mata (Ez. 34:16), e isso é uma das coisas que nos diferem do romanismo, onde há só um sacerdote, virado de costas para o povo a "servir a Deus". Esse não é o modelo neotestamentário, cada crente é um sacerdote na nova aliança! (I Pe. 2:9)
Os crentes deixam de ser dependentes ou independentes para ser interdependentes e essa igreja à medida em que aprende a Palavra aplica a Palavra, à medida em que aprende sobre o amor o aplica em seu viver comunitário, cuidado mútuo e dinâmica da mutualidade. (Gl. 6:1-2)

Terceiro benefício: O Crescimento do corpo para glória de Deus! (Ef. 4:15-16)
Nessa "Babel denominacional" em que vive nossa nação, onde os fins justificam os meios, não precisamos crescer a qualquer custo. Não precisamos abdicar de nossas crenças e valores para obter crescimento, precisamos de saúde, pois todo organismo saudável cresce naturalmente.
Uma liderança saudável gerará, automaticamente um povo saudável, uma igreja que cresce para glória de Deus e para a edificação de vidas.

Que Deus nos ajude nesse tempo de tão grandes desafios!

                                                                                                                                            Creia e viva!

                                                                                                                                                         Pr. Ebenézer Rodrigues

                

* Transcrição da mensagem do Pr. Ebenézer pregada no congresso da Comunhão Batista Bíblica Nacional em 2008.

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